domingo, 21 de setembro de 2008

[Crônica] Identifique-se - Pt I

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Quem é você? Qual seu nome? De onde vem? Quais os seus objetivos? Habilidades? Quais seus planos futuros? Por que essa empresa? Hum... certo! Vou encaminhar seu currículo para os superiores e lhe retorno. Mais uma entrevista e, ao invés de certezas, mais dúvidas.

Que coisa afinal eu sou? O que é ser? Por que sempre tenho que ter a resposta certa? Ele se perguntava a caminho de casa, com pelo menos uma certeza, a de que perdera mais uma oportunidade de estágio. Pedro não é do tipo de pessoa que prepara respostas, fica horas meditando sobre suas habilidades ou se preocupa em ser um candidato de destaque, ele só queria ser ele mesmo e que fosse aceito por isso.

Já era meio de semestre e nada, nenhum estágio. Ele precisava cumprir as horas e, além do mais, queria acumular experiência até se formar. Já tinha ido a seis entrevistas na região e parecia não ter pra onde ir. Mas Pedro também não é do tipo que desiste fácil, mesmo sem ter a mínima idéia do que fazer.

Ainda naquele dia, sentado na calçada em frente a sua casa e pensando na próxima empresa que iria, tudo aconteceu. Ela chegou com o caminhão de mudanças na casa da esquina que há tempos estivera abandonada. Pedro não acreditou, não era possível que alguém quisesse uma casa daquelas, quem seria o louco de gastar dinheiro para morar ali? Porque sem reforma era impossível ficar lá! Pensou ele.

Esperou alguns dias, até criar coragem, e aproximou-se da casa a fim de ver quem era a nova vizinha. Achou interessante a cena que viu. Ela não parecia ter mais de vinte anos, o que era bem próximo da idade dele, e estava toda cheia de tinta, com um rolo de pintura nas mãos. Ele riu e, acabou sendo ouvido por ela que também riu ao vê-lo. Os dois se apresentaram e logo Pedro e Ana estavam sentados no jardim dela conversando sobre toda aquela bagunça com a tinta.

Ana não gostava de coisas prontas, sempre procurava lugares e objetos que pudessem ser reformados ou moldados ao estilo dela, não era do tipo de pessoa que se adequava a padrões pré-estabelecidos. Era uma caçadora de novidades. Foi um pouco difícil explicar para Pedro que aquela casa era muito mais interessante para ela justamente por ter vários defeitos. Você só tem algo realmente seu quando monta aquela coisa e algo só é realmente interessante quando tem potencial para ser moldado, e para isso é preciso ter defeitos! Tentou explicar Ana, sem muito sucesso.

A tarde passou e os dois acabaram se divertindo muito. Ana tinha transferido a matrícula para a mesma universidade de Pedro, ela cursava artes plásticas, justamente no prédio ao lado do de comunicação social, onde estudava Pedro. Os dois combinaram de ir juntos pra faculdade, já que ela não tinha carro e Pedro ia sozinho no dele. O ritual da reforma entrou na vida de Pedro, que agora passava boa parte de suas tardes ajudando a nova vizinha nos projetos, para ele loucos, da casa da esquina.
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[Continua. Próximo domingo. 28.09]
Dascha Hoppenstedt

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